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Onde estamos nesta Páscoa?

Após dois anos sem celebrarmos a Páscoa presencialmente em nossas comunidades, neste mês de abril estamos nos preparando e, com a graça de Deus, estaremos em nossas comunidades para esta celebração que é o coração e o centro do Ano Litúrgico, bem como a força vital da missão da Igreja.

Como sempre digo a Páscoa de 2022 é única e diferente de todas as outras, não somente pela celebração presencial, mas porque tornamos presente no hoje da nossa história a ação salvífica e libertadora de Nosso Senhor Jesus Cristo.

O mistério pascal está sempre rodeado por acontecimentos de morte, consequência do pecado. Em meio a situações de morte, Deus sempre aparece fazendo Aliança com seu povo. Ele é o Deus que defende a vida, mesmo quando, por justiça, a consequência deveria ser a morte. Foi assim desde Caim até Jesus Cristo, os apóstolos e os mártires de todos os tempos.  Nosso Deus nos dá a vida em Jesus Cristo, apesar dos nossos pecados, crueldades, absurdos e abusos contra a vida. A Páscoa é sempre uma nova resposta de Deus à nossa história.

A Páscoa de 2022 também está rodeada por acontecimentos de morte, seja em nossa vida pessoal, como na história da nossa sociedade. Temos o horrendo dado estatístico da pandemia com quase 660 mil mortes no Brasil, tantas e tantas das quais poderiam ter sido evitadas, se a defesa da vida tivesse sido colocada acima de interesses pessoais. Enfrentamos, talvez por negligência das pessoas, uma desigualdade vacinal em nosso País. Temos também uma desigualdade vacinal no mundo; em países pobres nem mesmo a primeira dose foi aplicada.  As terras indígenas têm permissão de serem invadidas para satisfazer a ganância de garimpeiros, que não se importam com a nossa casa comum. A guerra do Leste Europeu nos faz ver tanta barbárie e nos atinge economicamente gerando mais pobreza e miséria. Vemos diante deste quadro pessoas procurando tirar vantagens em todas as situações, principalmente às custas dos mais necessitados. A injustiça mata. A injustiça dói.

Temos também os nossos dramas pessoais que não estão alheios ao olhar misericordioso de Deus.

Não obstante tantos flagelos que temos passado, de modo especial nestes dois últimos anos, o “coração do faraó continua endurecido”.  Como no Êxodo, “Deus endureceu o coração do faraó.” Por quê? Para que naqueles onde reside a fé, haja luz, enquanto as trevas dominam os de coração endurecido, e esta luz permita ver o Deus Salvador e Libertador. Na noite das trevas para o Egito, Deus liberta o seu povo, conduzindo-o pela coluna luminosa e o faz atravessar o mar a pé enxuto, “rumo à terra onde corre leite e mel.” Deus faz distinção entre Israel e os egípcios. Deus, na força da ressurreição do seu Filho Jesus Cristo, faz distinção entre os que se deixam guiar pela luz da fé e os que endurecem o coração como o faraó.

Onde estamos nesta Páscoa, no exército do faraó ou com Jesus, junto à Cruz? Estamos com o coração endurecido, acreditando que a melhor resposta é responder ao mal com o mal (“olho por olho e dente por dente”)? Estamos com o coração endurecido a ponto de acreditarmos que uma revolução política irá trazer a paz e que esta será alcançada com o povo tendo a possibilidade de portar armas de fogo, de modo que Caim continue a matar Abel? Estamos com o coração endurecido a ponto de chegarmos à conclusão de que a vingança é a resposta de justiça? Estamos com o coração endurecido desacreditando da Doutrina Social da Igreja (de modo especial a “Laudato Sí” e a “Fratelli Tutti”)? Estamos contemplando Jesus no seu mistério pascal – nos emocionando até – mas dizendo interiormente e externamente até, que os tempos são outros e é preciso abrir exceções à mensagem do Evangelho?

Podemos, porém, estar junto a Cruz, acreditando que o “está tudo consumado” de Jesus é a vitória do amor numa nova dimensão, apesar de toda injustiça e assassinato. Podemos estar junto à Cruz do Senhor, acreditando que este amor é mais forte do que a morte e que vence a morte. Podemos estar junto à Cruz de Jesus, acreditando contra toda desilusão humana, que o nosso Deus é fiel.

A alegria da celebração pascal dependerá do lado que estivermos.

+ Edmilson Amador Caetano, O.Cist.

Bispo diocesano

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